Transformações de dentro para fora: relato de experiência
por Milena Souza Sarmento

Resumo
O presente artigo se refere as experiências profissionais que levaram ao curso de Extensão em Africanidades Literatura Infantil e Circularidades: reflexões e práticas de Educação em Direitos Humanos, na Universidade Federal do ABC e, como este causou alterações pessoais e profissionais na prática docente em uma turma de berçário da Rede pública da Prefeitura Municipal de Santo André.
Palavras-chave: Africanidades, Direitos Humanos, Educação Infantil.
Introdução
Ao ser realizada uma pesquisa junto à comunidade escolar da Creche Irmã Rosina da Silva, da rede pública de educação do município de Santo André, sobre quais datas comemorativas deveriam ser celebradas no decorrer do ano, pela instituição de ensino, uma mãe apontou a necessidade do Dia da Consciência Negra ser valorizada neste âmbito.
Apesar do crescente empoderamento da pessoa negra de sua identidade, seu valor, de sua liberdade, ainda ressoam os grilhões da escravidão nos dias atuais, seja por meio do racismo, por meio da inconsciência, exclusão, dentre tantos outros que reforçam a ideia de desimportância do afrodescendente na construção deste país, e na evolução da humanidade.
Com a preocupação de minimizar os impactos negativos que a história causou à identidade da pessoa negra, a Lei nº 9.394 de 20 de dezembro de 1996, Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional, é alterada para abarcar a Lei nº 10.639/2003 e posteriormente a Lei nº 11.645 de 10 de março de 2008, que redige:
Art. 26- A. Nos estabelecimentos de ensino fundamental e de ensino médio, públicos e privados, torna-se obrigatório o estudo da história e cultura afro-brasileira e indígena.
§ 1º O conteúdo programático a que se refere este artigo incluirá diversos aspectos da história e da cultura que caracterizam a formação da população brasileira, a partir desses dois grupos étnico, tais como estudo da história da África e dos africanos, a luta dos negros e dos povos indígenas no Brasil, a cultura negra e indígena brasileira e o negro e o índio na formação da sociedade nacional, resgatando as suas contribuições nas áreas social, econômica e política, pertinentes à histórias do Brasil.
§ 2º Os conteúdos referentes à história e cultura afro-brasileira e dos povos indígenas brasileiros serão ministrados no âmbito de todo o currículo escolar, em especial nas áreas de educação artística e de literatura e história brasileiras.
Diante de tamanha responsabilidade posta sobre as mãos da educação, e consequentemente, dos educadores, faz-se necessário a oportunidade de formação continuada para estes, a fim de que tal lei seja realizada efetivamente, não de forma superficial, mas promovendo a transformação do individuo na figura do professor, tornando também a sua prática transformadora de uma realidade tão cruel aos afrodescendentes.
Neste contexto, cheguei ao curso de Extensão Africanidades, Literatura Infantil e Circularidades, Reflexões e práticas de Educação em Direitos Humanos, sob a coordenação da Profa. Dra. Ana Beatriz Dietrich, Nathália Vaccani e Éverton Siqueira Gomes com pouco conhecimento sobre a temática, sem ciência sobre as lutas, os estudos, cega à uma identidade tão oprimida no decorrer da história.
Os colegas
A primeira e, maior experiência marcante no curso foi, sem dúvida o contato com os participantes. Nunca tinha estado em um ambiente onde a temática fosse esta, onde o público fosse este. Ali ninguém escondia sua raça, sua origem, sua identidade. Ali o orgulho era ser negro, e tudo neles gritava isto, as roupas, os cabelos, as artes, o andar, o olhar, isto apenas percebido de forma visual.
Depois, foi pela palavra que eles foram os grandes professores. No decorrer das aulas, eles compartilhavam suas vivências, positivas, negativas e as de luta. Em cada relato, ensinamento, conhecimento dividido foi se desvelando a força de um povo, seu poder de resistência.
As aulas
Além das discussões e atividades em grupo, os conteúdos abordados ampliaram o conhecimento a cerca de que o continente africano oferece à humanidade, mais do que sua linda cultura, como focaliza a citada Lei 11.645/2008, mas também ciência e tecnologia produzida neste continente.
Foram ilustrados alguns povos da África, como os Iorubás e os Bantos, seus sistemas sócio-políticos, a agricultura como meio de sobrevivência, com tronco linguístico definido e religião. Desconstruindo a figura do negro escravizado, por tanto tempo difundida pela escola, e firmando a imagem do negro livre.
As aulas trouxeram a necessidade de uma educação que ensine a cooperação ao invés de competição. Promoveu a sensibilização a uma literatura cuidadosa com o tema da diversidade, valorização do afrodescendente e também escrita por ele, assim como pelo índio, pois por muito tempo, estes não tiveram apoio editorial.
Depois das manifestações culturais como capoeira, dança, músicas, religiosas, a Profª Drª Kiusam de Oliveira através de relatos reais aborda os temas do racismo e valorização do negro, empoderamento feminino, literatura, engajamento político e luta.

A prática
Apesar da Lei 10.639/2003, que determina o ensino da cultura e história afro-brasileira e indígena apenas no Ensino Fundamental e Médio, a iniciativa da mãe, aflorou uma necessidade antiga de aprofundamento na temática, não apenas para dar conta de uma determinação da lei, mas também da própria construção pessoal e profissional enquanto professora.
Atuando em sala de berçário, o recurso utilizado foi colorir as experiências dos pequenos com a cultura da África, já que ela não faz parte do currículo desta faixa etária.
As crianças ouviram algumas vezes a história “Bruna e a Galinha d’Angola”, de forma simplificada para que entendessem e mantivessem a atenção. Esta história está carregada de palavras e culturas africanas, como a tradição oral, o panô (recurso utilizado para ilustrar histórias), o trabalho com argila, o animal e crenças religiosas do continente. Depois os bebês fizeram pintinhas com tinta, na galinha d’Angola, confeccionando seu próprio panô.
Com o encerramento do ano, “Olele Moliba Makasi”, uma cantiga infantil africana, foi elegida para apresentação final. Esta música traz a imagem de um canoeiro remando, resistindo à correnteza, sendo forte, assim como os negros tem feito no decorrer do tempo. Os pequenos assistiram um clipe da música, ouviram e dançaram alguns dias na sala, e se apresentaram à comunidade escolar na festa de fim de ano.
Considerações finais
Se ao início havia a cegueira diante os afrodescendentes, hoje há a imersão na luta. Por menor que possa ser a ação, cada ato é peça fundamental à resistência.
A experiência, do início ao fim, deixa o sentimento de gratidão a todos os agentes e, a ela própria, pela oportunidade de vivê-la, pela ampliação de conhecimento e por ter promovido o engrandecimento enquanto pessoa.


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